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Douala é aqui (tão perto)

Há algum tempo, eu ando interessado em ler o Undercover Economist, de Tim Harford. Mas depois de ler este artigo na Reason, explicando a dinâmica que leva um país pobre a permanecer deste jeito, fui correndo encomendar o livro.

No artigo ele fala sobre Douala, em Camarões, um dos lugares mais pobres do mundo. Mas creio que não há uma vírgula de sua análise que não se encaixe como uma luva na maneira como as coisas funcionam no Brasil. Por exemplo:

É muito tentador para o visitante em Camarões dar de ombros e explicar a pobreza do país presumindo que Camaroneses são todos idiotas. Camaroneses não são mais espertos ou idiotas do que o resto de nós. Enganos aparentemente estúpidos são tão onipresentes em Camarões que a incompetência não pode ser toda a explicação. Há algo mais sistemático funcionando.

É uma boa advertência para analistas de todas as vertentes ideológicas, que tanto gostam de apontar o “povo brasileiro” como bode expiatório para toda sorte de males que afetam nosso país. Passado o ímpeto inicial de culpar o povo, Harford pinta um quadro que deve parecer muito familiar para qualquer pessoa com um pouco de senso crítico.

Mancur Olson mostrou que a cleptocracia no topo retarda o desenvolvimento dos países pobres. Ter um ladrão como presidente não significa necessariamente a ruína; o presidente pode preferir incentivar a economia e então tomar uma parte maior do bolo. Mas em geral, a pilhagem será difundida seja porque o ditador não tem confiança na duração de seu mandato, seja porque ele precisa que outros roubem afim de manter seu apoio.

A podridão começa com o governo, mas afeta toda a sociedade. Não há sentido em investir em um negócio porque o governo não irá protegê-lo contra ladrões. (Então você mesmo pode muito bem virar um ladrão.) Não há sentido em pagar sua conta de telefone porque nenhum tribunal pode obrigá-lo a pagar. (Então não há sentido em ser uma companhia telefônica.) Não há sentido em estabelecer uma empresa de importação porque serão os funcionários da alfândega que irão se beneficiar. (Então o setor de alfândega não recebe fundos suficientes e intensifica a busca por propina.) Não há sentido em ter uma educação porque os empregos não são baseados em mérito. (E de qualquer jeito, você não pode tomar dinheiro emprestado para as taxas escolares porque o banco não tem como cobrar o empréstimo).

Segundo Harford, teorias econômicas clássicas indicariam que um país com pouca infra-estrutura e recursos humanos como Camarões deveria ser em torno de quatro vezes mais pobre do que os Estados Unidos. No entanto, o país é mais de 50 vezes mais pobre, e estudos indicam, cada vez mais, que a maior parte desta diferença deve ser atribuída à corrupção em níveis governamentais.

O que, ao meu ver, só torna ainda mais preocupante a letargia que parece ter tomado conta do discurso político brasileiro depois do escândalo do mensalão. Ao preferir proteger os comparsas ao invés de promover uma caça às bruxas, o PT parece ter enfim conseguido acabar com o último resquício de crença nas instituições, abrindo caminho para que o Brasil, de uma vez por todas, se torne um lugar onde “é do interesse da maior parte das pessoas tomar atitudes que direta ou indiretamente causam danos a todos os outros”.

in Inductio

Aplicável também a Portugal

3 Comments | say something

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  1. É algo sobrevalorizado, o livro.

    E também não concordo com as deduções do brasileiro que citas. Dizer que (só) a cleptocracia leva a certos resultados é pouco como explicação.

    Existem países sem cleptocracia e que tem problemas económicos.

    Comment by dissidentex — June 25, 2008 @ 11:47 pm

  2. “Segundo Harford, teorias econômicas clássicas indicariam que um país com pouca infra-estrutura e recursos humanos como Camarões deveria ser em torno de quatro vezes mais pobre do que os Estados Unidos.”

    O país em causa DEVIA ser pobre. A cleptocracia explica a disparidade entre o que devia e o que é. Não leste tudo bem até ao fim.

    Comment by Mário da Silva — June 26, 2008 @ 9:38 am

  3. Mário, não é isso que eu quis dizer.

    Além disso repara: um país que fosse só 4 vezes mais pobre que os EUA seria, na prática, um país rico. Uma vez que apesar de tudo a base da qual se parte é muito alta.

    Por outro lado quem induz à corrupção em países pobres são as empresas de países ricos, entre as quais os EUA.

    Num país pobre, as defesas contra a corrupção introduzida de fora são muito poucas mesmo que a elite desse país, por variadas razões até resistisse bem a isso.

    Da parte que vi do Harford fiquei com a ideia que ele defendia neoliberalismo económico, nada mais.

    É em parte por isso que eu não concordo muito com as ideias dele e também com a tua muito bem posta lógica do “DEVIA” ser pobre.

    É muito relativo isso tendo em conta a base de que se parte.E as comparações que se fazem.

    E penso que o brasileiro que citas procura comparar o que o Harford diz com a situação do Brasil , que está longe de ser um país pobre, mas sim é um país corrupto.

    No entanto muita da corrupção do Brasil é importada via EUA, que fazem tudo o que podem para diminuir a capacidade do Brasil de deixar de ser tão corrupto ter a desigualdade tão distribuída.

    A realidade é que não se sabe muito bem porque é que um país é pobre e outro não, e nem tudo tem a ver com a população do país trabalhar mais e melhor do que a outra ou não trabalhar.

    Há um livro muito bom dum senhor chamado David Landes que explica isso. Explica por exemplo que Portugal segundo as teorias do Harford , como o fez há 300 anos atrás tornou-se pobre.(Isto depois misturado com a influência da Igreja católica, etc…
    A conversa anti corrupção e mercados livres é muito bonita mas tem sempre por detrás interesses de quem a veicula, mesmo culturalmente.

    Isto não significa evidentemente que eu apoie a corrupção, mas muitas vezes é usada -como problema real que efectivamente existe – para sustentar teorias que visam desmontar a influência do Governo de um país na sua capacidade de tomar e aplicar políticas autónomas e nessas ocasiões surgem sempre Harfords à solta…

    Comment by dissidentex — June 26, 2008 @ 10:27 pm

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