Será o Far-West? Maldade ou será só Ignorância?
Sobre o artigo de João César das Neves, publicado no DN do passado dia 26, com o título “A INTERNET E O FAR WEST” escrevi-lhe um email, curto e com alguns links, do qual ele discordou. Está no seu direito, ainda.
Como ele, na realidade, não entendeu o que lhe quis dizer, eu fiz-lhe então uma resposta maior referindo cada parágrafo do seu opinativo artigo do jornal. Continuou a discordar e a achar que eu não sei de que falo, embora ele saiba e bem… mas a mim isso pouco me importa.
Deve ser um súbito ataque de “baixos instintos” que me está a dar neste mesmo momento, mas se me chatear muito ponho aqui os outros emails também.
Por agora a minha capacidade de pedantismo e a grosseria, maldade e despeito, vacuidade e a mais pura e prístina estupidez está um bocado limitada… e fica só o que segue.
Caro Professor,
Só o seu título já é uma ofensa para quem seriamente está na internet, seja anónimo, seja a “dar a cara” como certas pessoas gostam de dizer.
A Internet é a maior colecção de insultos, mexericos, boatos e disparates alguma vez reunida na história da humanidade. Existem também coisas excelentes, belas e grandiosas, com uma qualidade única e inovadora. Mas não há dúvida que numa grande parte dos blogs, mensagens, comentários e sites de debate dominam o pedantismo e a grosseria, maldade e despeito, vacuidade e a mais pura e prístina estupidez.
Se aqui não continua o insulto não sei que lhe responda, sinceramente.
Qual a razão do facto? Podia dizer-se que a Net atrai pessoas de mau carácter, mas todos os sinais são contrários. É evidente que quem frequenta as novas tecnologias da comunicação ainda pertence a uma elite favorecida, com mais formação e conhecimentos que a média. Por muito que se tenha popularizado, a sociedade virtual é dominada pelos mais educados e sofisticados de um país como Portugal.
Olhe que não. Isso é claramente um erro. A web e outras áreas da Internet são frequentadas maioritáriamente por jovens, que são quem realmente tem o acesso. No caso dos blogs há um pouco de tudo e quanto aos comentários há uma atitude “cacetista” mas só em relação a alguns dos blogs mais polémicos. Visitou o www.blog.com.pt? Certamente que não para se sair com tamanha ideia. No meu blog eu falo sobre o “cacetismo” e os “sicários políticos”[1][2][3].
Assim a explicação mais plausível tem de ser outra: a Net tende a trazer ao de cima os instintos mais baixos dos que a frequentam. Uma prova desse facto é que muita gente põe em blogs e e-mails coisas que teria vergonha de dizer ao telefone, escrever numa carta ou publicar em jornais ou livros. Aliás vê-se que, interpelado ou confrontado com o que escreveu, frequentemente o autor cai em si e admite ter-se deixado levar pelo meio. O que prova que existe algo nessa forma de comunicação que motiva o dislate.
O meio promove a informalidade e não o dislate. Promove o mesmo que numa conversa de café origina que se digam coisas irreflectidas ou que numa discussão no Parlamento Nacional se ouçam coisas de bradar aos céus. Não tem nada a vêr com “instintos baixos”. Aqui mais uma vez ofende e ofende gravemente, ou não percebeu?
A Internet apareceu como um grande melhoramento das formas tradicionais de contacto, mas veio a revelar-se, em muitos casos, uma mistura entre carta anónima e jornal de parede, onde se podem proclamar impunemente as suspeitas mais implausíveis ou descarregar as irritações mais viscerais. Cada gestor de um site sente-se com autoridade de um director de jornal e capacidades de um estúdio de cinema, ambas reduzidas à estatura do seu ego. Isso cria potencialidades maravilhosas e muita gente faz coisas admiráveis. Mas também se podem expandir os preconceitos e ideias feitas, teorias mirabolantes ou ódios de estimação, tudo admissível porque aquele é o seu espaço, com regras por ele definidas. A enorme influência do meio só confirma essa atitude.
No entanto, isto que você escreve aqui e outras coisas ainda mais inacreditáveis que já li na imprensa dita séria (e das quais também falo no meu blog algures) não são nada egocêntricas, nem teorias mirabolantes de quem não se apoia em nenhum estudo sério e que dá passo a passo referências concretas do que diz.
Leia estes dois artigos, por favor, e talvez perceba algo do que é a web hoje em dia.
Credibilidade e Anonimato, Paulo Querido, 2004.
Guia da Gestão da Reputação Online, António Dias, 2007
Não digo que não haja pedofilia, máfias, traficantes e criminosos de toda a espécie que usam a internet como meio de trabalho. Eles também estão por detrás do Poder, dos Meios de Comunicação, ou o Professor é ingénuo e pensa o contrário?
Eles já lá estavam antes. Não foi a internet que os trouxe para a ribalta ou que os criou.
E até os caluniadores e gente ordinária ou com interesses duvidosos que usam especialmente os blogs como meio de propagação das suas ignomínias, mas esses rápidamente se desvanecem como temos bem prova nos blogs da Margem Sul e dos inúmeros que já apareceram só com o objectivo politico e mafioso de enlamear a oposição anónima e apartidária que tem surgido e que tem posto a nu certas coisas que se queriam escondidas… e com documentos, o que ainda os irrita mais.[4][5]
Mas daí a dizer que “não há dúvida que numa grande parte dos blogs, mensagens, comentários e sites de debate dominam o pedantismo e a grosseria, maldade e despeito, vacuidade e a mais pura e prístina estupidez ” é de uma insensatez e revela um desconhecimento da realidade do meio que só nos pode levar a reagir.
Alguns exemplos:
Destaques dos Blogs do SAPO
Directório de Blogs Portuguẽs
Weblog PT
Wordpress.com Português do Brasil
Wordpress.com Português de Portugal
Blog.com em Português
O Melhor Blog Português 2007
E este seu finale é o melhor em termos de ofensa que se poderia produzir (isto depois de dizer que a internet e os blogs não têm Lei):
Aqui surge outro problema. Muitos espantam-se por sociedades avançadas e sofisticadas tolerarem tais comportamentos. O que leva a Alemanha de Bach e Goethe a ajoelhar-se diante de Hitler? Serve-nos de aviso a afirmação de S. Bernardo: “Não há nada tão firmemente estabelecido na alma que a negligência e o tempo não enfraqueçam” (De Consideratione, I, ii, 2).
O que têm os blogs—que, no seu texto, é a parte que mais o irrita —de comum com Hitler? E qual é então o outro problema? E para quê S. Bernardo?
Sugiro-lhe que note no Blogger.com (ou blogspot.com) uma coisinha chamada “Assinalar Blogue” e que leia as regras de uso do mesmo em http://www.blogger.com/terms.g
As do SAPO.PT estão em http://ajuda.sapo.pt/comunicacao/blogs/utilizacaodoservico/TermosdeUtiliza_o.html
As do Wordpress.com em http://wordpress.com/tos/ e da qual saliento só esta pequena parte:
By making Content available, you represent and warrant that:
- the downloading, copying and use of the Content will not infringe the proprietary rights, including but not limited to the copyright, patent, trademark or trade secret rights, of any third party;
- you have fully complied with any third-party licenses relating to the Content, and have done all things necessary to successfully pass through to end users any required terms;
- the Content does not contain or install any viruses, worms, malware, Trojan horses or other harmful or destructive content;
- the Content is not spam, and does not contain unethical or unwanted commercial content designed to drive traffic to third party sites or boost the search engine rankings of third party sites, or to further unlawful acts (such as phishing) or mislead recipients as to the source of the material (such as spoofing);
- the Content is not obscene, libelous or defamatory (more info on what that means), hateful or racially or ethnically objectionable, and does not violate the privacy or publicity rights of any third party; and
E continua. Todos são semelhantes. No mundo inteiro.
Limito-me a falar só dos maiores a nível nacional e internacional.
Se fôr vêr as regras de uso de qualquer, e quero mesmo dizer qualquer, fornecedor de alojamento verificará que ali também não é o Deus dará. Há regras e formas de reclamar contra sites incorrectos, as REGRAS são firmemente estabelecidas, e os mesmos são vulgarmente fechados.
Como vê não é de um “País sem Lei” aquilo de que fala. Como vê fala levianamente sobre o tema e é ofensivo para quem está no meio e para quem vive do meio. Como vê não sabe do que fala.
Para evitar mais perdas de tempo concordemos em discordar.
Como eu não tenho o seu acesso previligiado à imprensa escrita informo-o cordialmente que irei publicar e/ou autorizar a publicação desta minha resposta a quem a quiser divulgar.
É o meio que tenho e conheço e, ainda, controlo minimamente.
Da resposta retiro somente um niquinho que demonstra a conversa de surdos:
Peço desculpa, mas não entro em discussões de orgulho ferido. Se o atingi com o meu artigo, peço muita desculpa. Não era esse de todo o propósito do meu texto, pois nem sequer o conheço nem queria atingir ninguém, nem sequer «quem seriamente está na internet» . Eu, como o senhor, também estou seriamente na internet. Eu pretendia, apenas, fazer algumas considerações directas e fundamentadas sobre uma realidade que me parece importante. Se não concorda comigo está no seu direito. Se quiser argumentar de forma objectiva, como eu fiz, terei todo o prazer em conversar consigo. Mas, repito, não entro em discussões de orgulho ferido.
Não sei o quanto mais objectivo é que é preciso ser com certas pessoas. Se calhar para a próxima faço um boneco… mas isto já devem ser outra vez os meus “baixos instintos” a vir ao de cima com muita força.
Olhe! Deixo-lhe aqui mais um artigo interessante demonstrativo de como está errado. Os egotistas não vão longe. Espero que o perceba.
Não quero deixar de incluir aqui referências a dois outros artigos relacionados com este assunto e que tinham seguido no tal email inicial para o sr. Professor das Neves:
Os extremos tocam-se, no Alhos Vedros ao Poder
Dois Césares, de Ludwig Krippahl
Respeitosamente, claro.
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Como se vê é JCN que não quer conversa. Limitou-se a encerrar a conversa com este email acima em resposta ao meu convite para vir aqui, ao cóio de má índole que é este blog, comentar a minha resposta ao seu artigo. Publicamente e sem censuras, que é mais bonito que em privado e só nós dois.
No seu artigo opinativo, de ataque a torto e a direito a toda a gente e sem dar uma única referência concreta (sites, estudos, etc) em que se baseiem as suas querelas e maus fígados, decreta os juízos absurdos que lhe apetece sobre algo que não sabe, mas que diz saber mais do que os outros.
No entanto, esta suma sapiência, na sua verborreia verruminosa excluí completamente a regulação existente, excluí absolutamente o fenómeno dos agregadores sociais (como o Digg e o DoMelhor), excluí absolutamente que 98% dos blogs são interessantes e permitem coisas tão interessantes como o indicado neste estudo, excluí a Wikipedia e todos os outros sistemas de saber comunitários e participativos, excluí, em resumo, 99,9% do que é, aquilo a que chama entusiasticamente, A Net.
E sai-se, lá do seu púlpito, com salmodias de sacristia bafienta e imensa presunção de quem julga que é, para inferir dos “juízos” dos outros e do que são as “pessoas” de “baixos instintos” que circulam maioritáriamente na mesma e que deve ser controlada, se calhar à moda Norte Coreana ou em algum Auto de Fé de uma nova Santa Inquisição, a fim de evitar que a liberdade descontrolada e irresponsável se torne embriagante e destruidora.
Eu dou VÁRIAS referências VÁRIAS do que digo em refutação DIRECTA do que o sr. Professor diz ser a Verdade — a sua, claro, que não existe outra — e a resposta é a que se pode lêr acima. Decretei juízos e/ou tenho orgulhos feridos. É tão ridícula a não argumentação que chega a ser triste.
Esta gente é, definitivamente, toda igual. E isto não é “decretar um juízo” mas sim uma generalização — coisa que JCN faz amíude — mas em formato concentrado num pequeno grupo de “intelectuais” que nos circundam e que controlam os meios de informação com as suas patacoadas de cátedra, e não uma boca avulsa e atirada para o ar.
O sr Professor insulta, sim, toda a gente. E é uma prática já habitual pela qual já foi inclusivé condenado.
Quer discutir? Discuta sériamente. Discuta cientificamente, se quiser. Mas não nos venha com tretas destas que são inaceitáveis.
Isto claro que não tinha a intenção de ofender.
Se ofendi, ficam desde já as desculpas.
Respeitosamente, sempre, claro.
Comment by Mário da Silva — November 29, 2007 @ 3:06 pm
Excelente! Muito bem mesmo! Obrigada
Comment by Moriae — December 3, 2007 @ 2:17 pm
Porque responder aqui seria descontextualizar a questão, respondi no meu mal frequentado blogue!
Comment by h - V&P — June 4, 2008 @ 11:52 am
Ao lêr o seu comentário não vejo em que ter colocado a resposta aqui teria descontextualizado o que quer que fosse. Em todo o caso lá respondi e transcrevo abaixo essa resposta:
Comment by Mário da Silva — June 4, 2008 @ 3:27 pm