Vai um cházinho?
Os segredos por detrás de cada chávena
Mais do que uma simples bebida, o chá assume na nossa sociedade uma elevada importância cultural e social. Com variações para todos os gostos, bebe-se mais chá em todo o mundo do que qualquer outra bebida. Que segredos estão na sua origem? Sabia que foi uma portuguesa que o introduziu na sociedade inglesa e que nos Açores existe a importante cultura na sua produção? Apresentamos-lhe aqui um pouco da sua história e quem sabe se não poderá ser este o tema do seu próximo «chá das cinco»!
Segundo a lenda chinesa, a origem do chá está ligada ao imperador Sheng Nung, que por razões de higiene só bebia água fervida. Certa tarde, no ano de 2737 a.C., enquanto fervia a sua água, uma brisa terá arrancado algumas folhas do arbusto que lhe fazia sombra. As folhas caíram dentro da água que já fervia e o imperador gostou do sabor que encontrou quando a bebeu. O arbusto de onde caíram as folhas era a planta que viria a dar origem ao chá, a Camellia sinensis. Desde então, o chá tornou-se uma bebida universal, viajando inicialmente da China para todo o Oriente e posteriormente para a Europa.
A introdução do chá na Europa é claramente atribuída aos portugueses, que em 1560 mantinham trocas comercias com Macau. A partir do nosso país, o chá foi depois levado para a restante Europa pela Companhia Holandesa das Índias Orientais. Desde o início, o chá começou a agradar a todos e rapidamente se expandiram as suas rotas de comércio. Também a Grã-Bretanha se tornou um país de enorme consumo de chá, através da influência portuguesa. O grande desenvolvimento do chá em Londres está intimamente relacionado com o casamento da princesa portuguesa Catarina de Bragança com o rei Carlos II. Parte do dote da princesa era uma arca de chá. A partir daqui, o chá começou a ser servido na corte e a conquistar as camadas mais altas da sociedade. Durante o século XVII, o chá torna-se a bebida mais popular de Inglaterra. No entanto, só no princípio do século XIX surge a ideia do chá da tarde, que chegou até aos dias de hoje.
Chás ou Infusões?
Actualmente existem no mercado inúmeras qualidades de chás. Mas o que poucas pessoas saberão é que chás só se deveria chamar aos produtos provenientes das folhas da planta Camellia sinensis. Ou seja, aquilo a que vulgarmente chamamos chá de erva-cidreira, de limão, entre outros, nada mais são do que infusões ou tisanas. A Camellia sinensis é uma planta que contém muitas substâncias químicas que dão ao chá a sua cor e sabor característicos. Os quatro tipos de chás existentes são então classificados de acordo com o grau de fermentação desta planta. Assim, podemos encontrar o chá branco, produzido numa escala muito pequena, feito com as folha jovens, que não sofreram o efeito da oxidação; o chá preto, que é conseguido através da exposição das folhas ao ar; o chá verde, em que as folhas são apenas submetidas a um tratamento a vapor, mantendo por isso a sua cor verde; e, por último, o chá oolong, que resulta de um processo de tratamento intermédio entre o chá preto e o chá verde. O chá preto e o oolong servem ainda para o fabrico de chás aromatizados e de mistura. Nestes casos, aos chás processados são acrescentadas algumas especiarias, pétalas de flores ou óleos essenciais de frutos. Alguns dos mais conhecidos exemplos destes chás são o chá de jasmim, a que se acrescenta a própria flor, e o chá earl grey, que resulta de uma mistura de chás pretos, aromatizados com óleo de bergamota (uma espécie de laranja). Estes chás não devem, no entanto, ser confundidos com as tisanas ou infusões que existem no mercado.
A produção de chá nos Açores
As únicas fábricas e plantações de chá na Europa, Chá da Gorreana e Chá Porto Formoso, localizam-se na ilha de S. Miguel, nos Açores. A única que se mantém em funcionamento desde a fundação, em 1883, é a fábrica de chá Gorreana. Um dos seus segredos reside no facto de todo o processo de fabrico do chá (plantação, colheita, secagem e tratamento) se desenrolar no mesmo local, respeitando os métodos tradicionais. A Gorreana produz chá verde e preto. A importância do chá para a região é tal, que actualmente está a ser criada a primeira Confraria do Chá do país, que terá como principal objectivo promover uma cultura que é única na Europa. A confraria irá apostar na divulgação do chá na região e de toda a sua história, que remonta já a 1820, quando as primeiras sementes foram trazidas do Brasil. Ambas as fábricas são locais de eleição para o turismo da região. Num só local poderá ter uma verdadeira «aula» sobre chá, fazer uma prova do que mais lhe agradar, para que possa ainda comprar e levar para casa.
Que benefícios?
Já lá vai o tempo em que o chá, mais do que uma bebida, era considerado um medicamento. Embora hoje em dia já não tenhamos essa visão, estudos demonstram que o chá poderá ter de facto influências positivas na nossa saúde ao ser inserido numa dieta saudável . O facto de ser um produto natural é obviamente uma das suas maiores mais-valias. Uma vez que contem flúor, pode reforçar o esmalte dos dentes e ajudar na prevenção de cáries. Estudos recentes demonstram que o chá preto ou verde pode reduzir o risco de cancro, actuando como um antioxidante, prevenindo assim o desenvolvimento de células cancerígenas. Novas investigações apontam também ao chá efeitos benéficos em doenças do coração , acidentes vasculares e tromboses, podendo reduzir em 44 por cento a hipótese de um segundo ataque, tomando apenas duas chávenas diárias. Esta tese apoia-se no facto de a cafeína presente no chá actuar como um estimulante do coração, reduzindo a probabilidade de arteriosclerose. Por outro lado, o chá verde é vinte vezes mais activo sobre a quantidade de lípidos no corpo do que a vitamina E, ajudando assim ao emagrecimento.
Para além das características que lhe apontámos, o chá está presente no nosso dia no combate às mais pequenas indisposições. Quando temos uma dor de cabeça ou uma dor de barriga, logo nos lembramos nos conselhos sábios das nossas avós, marcados pelo conhecimento de experiência feito.
O Chá das Cinco
Instaurado no século XIX pela VII duquesa de Bedford, o chá das cinco assume para os ingleses um verdadeiro ritual. Na época, almoçava-se cedo e jantava-se muitas horas depois, o que levou a duquesa a adoptar o hábito de, entre as três e as cinco horas da tarde, beber uma chávena de chá. Pouco a pouco, começou a convidar amigos para partilhar esse momento, lançando assim uma moda de sucesso rápido que permanece até hoje.
Agora, como então, recebe-se a família ou os amigos para o chá. Este é preparado segundo cinco regras de ouro, tipicamente britânicas: escaldar o bule para permitir que as folhas de chá libertem todo o seu perfume; deitar no bule uma colher de chá por chávena; deitar a água quente, nunca fervida, sobre as folhas; deixar em infusão entre três e cinco minutos; mexer e servir. Depois da sua implementação, o chá das cinco deu origem a todo um novo universo, quer ao nível de doçaria para o acompanhar, quer ao nível de instrumentos usados no processo de o servir. Os bules, os passadores, os açucareiros, as leiteiras, as chávenas, os scones, os muffins, as compotas e geleias não só valorizam o chá na produção de todo o ritual como, e muito, na sua degustação.
Conselhos da avó
Deixamos-lheaqui apenas algumas dicas de como os chás ou infusões podem ser usados no combate às indisposições diárias.
Dores de cabeça: erva-cidreira, camomila e alecrim
Ansiedade: camomila
Calmantes: tília; manjerona; flor-de-laranjeira
Antifadiga: tomilho e alecrim
Dores menstruais: erva-doce
Soluços: hortelã-pimenta
Chá de jasmim: excelente diurético
Chá de hortelã: atenua azia, gases e cólicas
Menta: ajuda à digestão
Alecrim: contra o stress físico e mental
Carqueja: alivia azia, má digestão e prisão de ventre
Erva-cidreira: atenua insónia, nervosismo, cólicas no ventre
Eucalipto e malva: contra as inflamações das vias respiratóriasPoejo: anti-inflamatório e excelente depurativo
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