O Povo e a História
E o que mais confrange, é esta abdicação, no Estado como no indivíduo, ser feita de indolência estúpida, de desgoverno insólito, de falta de brio cívico. Não nos cerceia a miséria filha dum estancamento completo de recursos; cerceia-nos o desleixo, derivante dum descaminho de força, e duma aplicação viciada de predilecções e faculdades. (...) O resultado é este: em cima, o país gozado por dez ou doze charlatães, de parceria com dez ou doze bandidos, o todo fazendo permutações ou infâmias e jiga-jogas de negociatas, que lhes permitam aguentarem-se alguns meses mais no tombadilho: em baixo, a massa avulsa, morrinhenta, sórdida, sem força, desiludida de tudo, irrespeitosa de tudo, insultando-se como os bêbedos, sofrendo o azorrague como os cães, vendo passar as afrontas, indiferente, e deixando-se cair alfim no próprio vómito, onde a letargia a açovaca, até que uma chicotada nova a faça outra vez estrebuchar.
Fialho de Almeida, Os Gatos, Lisboa, 1986, p. 131.
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